O serviço militar em Portugal foi sempre considerado um dever ao serviço da Pátria. No entanto, foi a partir da década de sessenta que aos jovens portugueses se exigiu uma missão mais rigorosa, por causa do rebentamento da guerra em África.
Grandes contingentes militares e em força na maioria com poucas formações militares, embarcavam para as frentes de batalha, como quem diz, como carne para canhão.
No alistamento a situação física ou psicológica de cada mancebo, ou a posição de sustentabilidade familiar, pouco interessava. O que o país precisava era de mancebos alistados nas forças armadas, fosse no ramo da armada, no exército ou na força aérea era um ato patriótico, daí se dizer que quem não fosse para a tropa ou mesmo não embarcado para o teatro das operações era um inapto para a sociedade e para o resto da vida.
Durante anos e após o jovem português ter completado dezoito anos de idade, o seu alistamento era efetuado obrigatoriamente e através de edital bem afixado à porta das juntas de freguesia, convidavam-no no ano imediato a apresentar-se no distrito de recrutamento, sediado nas cidades. Então, nesse dia, no dia da inspeção e perante três senhores de bata branca, totalmente despidos, lá estavam eles a mostrar as suas mazelas. Esse dia era de romaria e pela manhã estes mancebos iniciavam a festa com a algazarra do rufar dos tambores, dos bombos e das concertinas, até à noite. Era um dia de muita emoção, mas sem a noção do que os esperava, futuramente e após o parecer de aptos para todo o serviço militar. Mas se para estes havia alguma alegria, para a maioria dos pais era o iniciar prolongado de tristeza infinito, é que os filhos iriam ficar ao serviço da Nação e durante três anos no mínimo iam ficar distantes da família e se fossem mobilizados para a guerra do ultramar, talvez não chegassem sãos e salvos. Embora os batimentos do coração não tivessem a mesma sequência, após a aptidão para o serviço militar, regressava-se à acalmia ou mesmo ao silêncio até que a convocatória de apresentação na unidade de recrutamento, chegasse. Esta notícia depois de afixada era rápida a chegar aos habitantes da aldeia de que os Manuéis e os Zés eram os futuros militares da terra a serem chamados. Então e no dia estipulado com as malas atarracadas, a guia de transporte na mão e de cabelo devidamente cortado e cuidado, estes mancebos se apresentavam no quartel, onde iam assentar praça. Muitas das vezes os mancebos do Norte de Portugal iam assentar praça no Porto, Lisboa ou Algarve, enquanto os residentes no Alentejo e Algarve, faziam o trajeto oposto iam-se apresentar no Porto, em Vila Real ou até em Chaves. Com esta atitude de deslocados das suas áreas de residência a ação psicológica começar a funcionar. Depois lá vinham as folgas e os fins-de-semana onde os rapazes eram dispensados e lá regressavam para visitar a família e rigorosamente fardados, caso contrário não saiam do quartel, com a sua cor predileta, a verde feijão do exército, a azul da força aérea, ou a de branco da marinha, e com a devida licença na mão, era vê-los em corrupio nas estações dos caminho-de-ferro ou nas camionetas de carreira.
Finda a recruta, era outra a dor de barriga. É que aqui começava outra das tarefas difíceis de digerir. Além de mudar novamente de zona militar, iriam enfrentar outras exigências na sua formação militar, ainda mais rigorosa que a anterior. Era a especialização. A especialização que na frente da batalha dava prestígio à classe e concentrava-se na infantaria, na cavalaria e na artilharia. Mas também havia outras forças preparadas em terra, no mar e no ar, como os fuzileiros e os paraquedistas.
Os verdadeiros soldados
Eram aqueles que palmilhando matas sem fim
Se mostravam ser capazes
De lutar até ao fim.
Aprendendo a ser duros
Do lutar até morrer
Mostrando-se ser seguros
Não faltando ao dever.
Mas foi por causa da guerra em África que rebentara em Angola em 1961, e se segui a de Moçambique e na Guiné que levou os políticos a repensarem nos reforços dos contingentes militares e então enviarem mais tropas para as províncias portuguesas além-fronteiras, não esquecendo Timor.
Esta guerra ficou desde logo manchada com a primeira queda do império lusitano, quando as forças militares indianas ocuparam o bastião de Goa, Damão , então de soberania portuguesa.
Virados para África, do Cais de Alcântara em Lisboa, milhares de jovens partiriam em grandes embarcações superlotadas de militares, com destino a defender Portugal, com uma única certeza a de que saíam do cais mas sem a certeza do regresso. A viagem era demora e por vezes chegava a demorar quinze ou mais dias a chegar ao destino. Mais tarde o transporte de tropas também se passou a efetuar via aérea.
As notícias oficiais da guerra normalmente iam chegando a conta-gotas. Por vezes até eram desagradáveis. As doces concentravam-se nas chegadas, no termo da comissão, na missão do dever cumprido e com sorte, vivos. No regresso desses militares, havia festa , rebentavam-se foguetes anunciado o regresso do filho à terra Natal, como demonstração de alegria. Mas também havia o lado oposto e aqui os arrepios eram outros, era a dor de coração de quem perdia um filho ou familiar.
Os meus pais também sentiram na pele este pesadelo, depois das comissões em Angola e Guiné de três dos seus quatro filhos.
No meu caso em concreto o Estado até nem precisou de me convocar é que eu até me auto voluntariei, por causa do desemprego que pairava já em 1970. Daí o voluntariado para me ver livre o mais depressa possível da tropa.
Então, em 17 de julho de 1973 e de trocha às costas, saindo da casa dos pais, apanhando pela primeira vez uma locomotiva movida a lenha e com inicio em Vila Real, fazendo mais mudanças de comboios na Régua, no Porto até chegar às Caldas da Rainha onde se localiza o Quartel RI 5 e onde iria assentar praça.
Sendo a primeira vez que andava de comboio e não conhecendo o trajeto e as respetivas mudanças, em vez de sair na estação ferroviária de “Alfarelos” saí meia-dúzia de estações mais à frente com duas horas de avanço desta localidade. Tendo que retroceder para entrar na linha da Figueira da Foz e desta para apanhar a locomotiva Caldas da Rainha onde chegara às dezasseis horas em vez das nove, hora previsível.
Ao passar a porta de armas e depois da apresentação fui receber o respetivo fardamento militar. Mas se a maioria dos recrutas se apresentam devidamente com o cabelo cortado, ou mesmo rapado eu levava-o muito comprido a cobrir as orelhas e a cair sobre os ombros. Então e sem outro estigma fui seguidamente direcionado para a barbearia onde o barbeiro sem me perguntou pelo modelo de corte a aplicar, rapou sem dó nem piedade.
Foi a reconhecida carecada que me dava desconforto e pouca proteção às orelhas, e quase uma constipação, porque durante dois anos as orelhas estavam escondida no cabelo e o tamanho descaracterizado, convicto que as minhas eram maiores que a dos outros. O certo é que durante a recruta nunca mais saíra da unidade para gozar as folgas ou mesmo descer à cidade. É que depois da instrução não estava para me sujeitar às revistas diárias e à medida do cabelo efetuada pela densidade da esferográfica, defendida pelos oficiais de serviço.
Era a tropa que manda desenrascar e nesse desenrascanço, quando ao primeiro dia me furtaram o bivaque e eu me queixei a um camarada este me alertou para ficar calado e desenrascar-me. Então e se era assim e como ladrão não protege ladrão, na primeira oportunidade, roubei um também, até porque não podia andar fora da caserna sem o dito.
Mas nestes formalismos militares, até acabei por ter sorte na companhia onde me integraram “ a sexta companhia”. É que esta companhia desde o comandante que não aparecia no adjunto, ou nos comandantes de pelotão, os que geriam a companhia, pareciam andar todos contrariados. Então com o comando pelotão a sorte era mais do que evidente. O aspirante, militar de raça negra, demonstrava claramente a desmotivação na vida militar e só pedia para não o incomodarem muito.
Mas nas outras companhias nada disto era demonstrado. Os galões amarelos, capitães de companhia e subordinados levavam as coisa mais a sério ou então eram só parecenças. A vaidade subia-lhe à cabeça quando tomavam os recrutas como parasitas, tratando-os com desprezo e renúncia.
O capitão Varela Gomes era um desses que quando se levantava e saia do quarto a primeira olhadela para a parada era o de verificar onde havia o maior aglomerado de militares. Então dava a volta à parada só para sentir o toque das botas e das paladas do maior número de instruendos.
Mas aqui havia um outro artista que deveria ter outros comportamentos até porque era o comandante da Unidade. Um tal de Coronel Cesário dos Santos Miguel cujas palestras depois de almoço tinham sempre um condão - o da ameaça para o ultramar daqueles recrutas que se portassem menos bem durante a recruta.
No final da recruta fiz um favor ao tal CSM e uma carta manuscrita pedi que cumprisse as ameaças e me mandasse para a Guiné. De volta tive a resposta de que todas as ameaças eram gratuitas e a brincar.
Acontece então e que por comportamentos inadequados para a instituição militar, meia-dúzia de militares ficaram retidos enquanto os restantes foram passar férias. Isto foi no final da recruta. Mas um recruta que passava a vida a passear-se de rádio ao ouvido e segundo consta, esquecendo-se dos panfletos de apoio aos movimento terroristas deixados dentro dos livros de instrução foi, segundo parece, parar ao presidio militar.
Passado este período vou parar a Paço de Arcos, à chamada escola EMEL. As aparências pouco tinham a ver com um quartel. Isto passou-se em janeiro de 1974. Era uma escola com um refeitório bem apresentado higienicamente, mais parecido com uma sala de hotel em comparação com a nojeira das anteriores instalações, muito gordurosas as das Caldas da Rainha, num quartel que até formava sargentos milicianos.
Aqui mais uma vez algo me marca para toda a vida, o 28 de Abril de 1974, três dias depois do dito 24 de Abril.
Foi nesta Unidade que vi passar o 25 de Abril de 1974, o tal que ditava a dispara desigualdades da sociedade portuguesa, mas que os cabecilhas do golpe sempre fizeram acreditar o contrário. Nesta Unidade fechados a sete-chave e proibidos de sair da Unidade, aguardámos o evoluir dos acontecimentos. Mas no dia 28, calhou-me por sorteio uma operação especial, mas que em cima da hora fora abortada. Era a chamada caça ao PIDE, gente que não conhecera nem fora visivelmente incomodado. Estando de serviço “sargento dia aluno” cabe-me a missão de levantar o armamento necessário para o serviço e que incluía uma FBP. Vinte e quatro horas depois e sem passar minimamente cartão ao material, vou devolvê-lo ao local onde o requisitara. Quanto a mim eu caíra numa armadilha do militar encarregue do material de guerra tal como da forma apresentada. Disse-me o armeiro que faltava um carregador da FBP ao que respondera que o material requisitado era o que estava para ser devolvido e viro-lhe as costas.
Passados dois meses sou chamado ao Comandante da EMEL que questionando o caso do carregador e respetivas munições, me deu 24 horas para me desenrascar, caso contrário iria parar à casa de reclusão. O que me aconteceu então? Onde ia procurar material militar desaparecido? Não tivera outra solução que não ir à procura do tempo perdido. Dou uma saltada à feira-da-ladra e é lá que encontro um carregador de G3 pendurado na parede, mas vazio. Faço negócio, dou cinquenta escudos ao dono da loja e rapidamente chego à Unidade e vou diretamente ao armeiro entregar o dito e digo-lhe que apenas encontrara aquele tipo de carregador. Questiono-o a informar o Comandante de que o dito fora encontrado, mas debaixo de um armário das instalações e quanto às munições nada feito. O caso terminou aqui e sem consequências
Terminada a especialização militar nesta Unidade, rumo à unidade do Campo Grande, onde hoje funciona a Universidade Lusófona. Ainda pairava no ar a confusão do 25 de Abril. Estava-se em Maio e havia uma certa convulsão nos CTT. Então acharam que os militares desta instituição seriam os apropriados para pôr ordem nas instalações dos CTT. Contrariamente ao que o Comandante pretendia, dois aspirantes cujos nomes “Anjos e Marvão” vinham à cabeça, instruíram a maioria do pessoal da unidade a recusar tal incursão acabando o Coronel por ser impedido de entrar nas instalações no dia seguinte. Isto é a uma sexta-feira e por estranho que pareça alguém tentou trancar o pessoal dentro da unidade, mandando estacionar duas chaimites à porta de armas.
Estou de serviço e lembrei-me de saltar para os cornos do animal, correndo riscos. Como o pessoal de serviço ao fim de semana era o mesmo, pedi-lhe para se juntarem nas casernas demonstrando a força da revolta aos que impediam acesso às entradas e saídas da unidade, aos outros, aqueles que queriam ir de folga, mandei-os sair pelo lado contrário da porta-de-armas e irem à vida. Então, mas os riscos a correr naqueles dias? É que naquele quartel e segundo se consta havia um tenente do contra revolução que metia o guedelho em tudo. Num desses dias o tal tenente, mesmo não estando de serviço mandou formar o pessoal de serviço entre outros e assistiu à chamada. Quem é que estava a chefiar este grupo? Eu. Então como me desenvacilhei disto? Depois de instigar os presentes a responder a todos os chamados, estes iam respondendo intercalarmente as vezes necessárias com a palavra, presente. O dito não ficou contente com o que viu e resolveu destroçar, resmungando e a unidade nos imediatos volta à normalidade.
Mas a vida continua e quando já não esperava vir a ser mobilizado, ex que o sou e em 22 de setembro de 1974 embarco num avião militar para Angola, mais concretamente para Luanda onde chegaria na madrugada de 23 à linda Capital, para uma rendição individual. Mas horas antes do embarque e na antiga Feira Popular, criara ainda um embaraço à PM, por causa da cabeleira que austentava e a posição da boina na cabeça. Não fosse o ter que me apresentar às 22 horas no aeroporto de Figo Maduro para o embarque, com certeza que tinha algumas chatices com os militares de Lanceiros 2, mas não foi preciso, dando-me liberdade de movimentos.
Chegado a Luanda, com uma lindas vista aéreas, ainda ao amanhecer, eu que era o militar mais novo “ mas ninguém sabia que era voluntário” fui encarregue de orientar mais meia dúzia de militares para a mesma unidade “ o ATA”- agrupamento de transmissões de Angola. No caminho entre o aeroporto e a unidade militar ouvi umas frases que me desmotivaram bastante, porque julgava sermos militares bem sucedidos principalmente entre as populações continentais, mas não foi o caso ao ouvir dum senhor que morava próximo do bairro do aeroporto “Belas”, murmurando ao que vinham estes filhos-da-puta para aqui fazer?!...
Pois bem, esta frase ficou-me para memória futura e devo dizer que não poderia ser humilhado um militar que acabava de saber que a sua missão que estava em salvaguardar os interesses nacionais, causasse em certos setores da sociedade instabilidade.
Desde o dia 23 de Setembro de 2004 a 22 de Setembro de 2005 que Luanda foi a minha cidade embora morando e convivendo no seio militar e dentro de um Quartel. Mas no dia 7 de Novembro pelas 21 horas confrontara-me com o primeiro aso controverso naquela cidade que parecia calma e onde havia respeito, eu que até gostava de viajar no meio dos autocarros, repletos de gente de cor. Mas aquele jamais esquecerei, quando subindo a cidade em direção à unidade, por entre musseques, quatro indivíduos negros aos pares separados pela faixa de rodagem se viraram para mim e para o meu camarada e desabafam no tom de para que eu mato e debaixo da camisa retiram uma arma de fogo. Instantaneamente me saiu a frase não matas nada mas sempre em andamento, mas com sorte de no momento passar uma viatura automóvel originando a que eles fugissem para as barracas. A partir dessa noite, jamais saíra para a cidade a altas horas que não fosse acompanhado mas sempre pelo centro da cidade e não próximo do musseque.
Luanda é uma cidade maravilhosa e as suas praias tinham uma água límpida onde se podia tomar banho. Todos estes fatores poderiam ser saboreados até meados do mês de Junho de 1975 altura em que se juntaram os movimentos de libertação na Capital e onde nunca se entenderam até à expulsão da Unita e da FNLA de Luanda pelas tropas portuguesas e amigos do MPLA, tropas cubanas.
Foram milhares os africanos assassinados pelas balas dos movimentos e nós os militares portugueses só reagimos quando algumas balas perdida entravam nos nossos quartéis e ofendia um militar português, porque as unidades portugueses estavam cercados pelas unidades dos movimentos.
No entanto e nestas escaramuças houve uma tentativa de assassinato das tropas portuguesas prespetivado pelo MPLA sem que o Governador Geral de então estivesse interessado em aniquilar o conflito. Foi o originado caso da Vila Alice em Luanda, que poderia causar uma hecatombe no seio militar, com a destruição da base militar do MPLA, por estes terem terem atacado uma força portuguesa, que houve reação. As operações conjuntas deixaram de ter sucesso e Luanda viveu dias instáveis a ferro e a fogo até ao expulsão dos inimigos do MPLA. Mas os naturais, sabiam que a instabilidade entre africanos iria durar anos a curar e de entre eles, ouvi de um cidadão angolano, com idade avançada dizendo-me que com a saída dos portugueses, eles iriam morrer à fome. Isto foi em 1975 e a guerra entre africanos prolongou-se por mais 30. Hoje, Angola tem duas vertentes a dos que vivem bem e outros que vivem na miséria, quando há petróleo e diamantes a jorros, mas cujos lucros apenas servem para cobrir interesses individuais, onde se integra a família do presidente.
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